
Por
favor, se alguém souber de um trem direto para o infinito, me avise!
Ficarei satisfeito. Preciso de um tempo pra pensar, e sei que bem (ou
mesmo mal) acomodado num vagão, que pode mesmo até ser de segunda
classe, não importa, eu terei espaço para refazer as minhas ideias. Esse
caos urbano está me deixando atordoado. Ninguém quer mais ouvir
ninguém. Apenas jogar palavras soltas e desconexas para todos os lados, e
ainda se achar no direito de ser ouvido. Quero olhar da janela e ver
estrelas. Sentir o deslizar das rodas sobre os trilhos, fazendo um som
característico daquelas conduções que transportam corações solitários. E
quando o bilheteiro vier me cobrar a passagem, vai perceber que o meu
destino é a estação final. Então irei até o fim da linha. A minha
pequena mala, na verdade, uma valise, bem acomodada no bagageiro do
trem, vai me garantir na viagem a consulta de um velho caderno de
rabiscos. Quase toda a minha vida está ali. Exceto alguns momentos que
eu fiz questão de não registrar. É que já me basta a tortura de algumas
lembranças. Então, se a mente me castiga, pra que sentenciar num papel?
Deixa o trem correr, estrada de ferro afora! Tudo que for passando,
ficando para trás, eu vou querer esquecer, na ânsia de chegar ao lugar
que eu propus. Só tomara que o condutor seja daquele tipo que se
concentra na viagem e embarca nela, esquecendo até de apitar quando nas
curvas fechadas, alertando pessoas e bichos desatentos ao tempo. Assim
eu não vou desviar dos meus mergulhos da mente. E essa viagem vai ser um
voltar às origens. Um mergulho nas fontes da minha existência. (Eliel Silva, 11.02.2022)
Eu vou procurar não lembrar desses quase oito dias de angústia à espera de um sinal de vida de dona Lélia. Mas me lembrarei sim, das tantas vezes em que fui tão bem recebido por ela em sua residência, quando lá eu chegava para ouvir ou tirar algum som com o amigo Giancarlo. Como esquecer daquelas sessões de música com o fera no violão, Gerson Vieira, e com Gian, ainda um garoto, mas já de uma inteligência e performance musical sem igual. Daí eu com a minha brejeirice ainda arriscava um número musical. Com o meu violão e a minha gaita, entoava uma canção do Zé Geraldo, e sentia no aplauso, vibração e comentário, a aprovação dela, tão sincera. E foi sempre assim, em todos os nossos encontros. Nos momentos difíceis, felizmente eu também estive por perto e, do meu jeito, levei uma palavra de conforto e solidariedade. Assim eu quero lembrar dessa grande mulher. Exemplo de força, de fé e de pessoa que, mesmo diante das dificuldades, não perdia o bom humor. Querida Dona Lélia, vou lembrar da senhora em momentos como esse que essa fotografia faz registro: um aniversário meu, na casa dos meus pais, em abril de 1987, com essa turma de amigos/irmãos (alguns que também já partiram – Barnabé, Mira, Gerson e José Wilson), todos tão jovens, e a senhora uma menina, (por que não?) no meio deles.