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"Engolimos de uma vez a mentira que nos adula e bebemos gota a gota a verdade que nos amarga." Denis Diderot

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

De 2016




Endereço


Amigo, você que há muito tempo não me vê, quer me fazer agora uma visita, sabe a rua que eu moro, mas não lembra mais onde é a casa, vou lhe ensinar: É fácil. Quando for descendo na rua, anda uns vinte metros e vai encontrar uma casa de muro alto, cerca elétrica, portões automáticos, dois carros na garagem, uma piscina bem na entrada. Pois bem, não é ali não. Ande mais uns duzentos metros e você vai encontrar uma casinha com um vira lata amarrado na área, uma cadeira de balanço (com dois fios já quebrados, ressecados pelo sol), e um vaso com um belo pé de “comigo-ninguém-pode” (nunca se sabe do "olho gordo" dessa gente). Não faça cerimônia. Seja bem vindo, amigo! Tomou nota?!

P.S.: Crônica descontraída pra começar um belo sábado de sol.



Pensamento

E foram tantos os caminhos que me levaram a lugares onde ninguém me esperava. Então, por não saber voltar, fui adiante, sem ao menos olhar pra trás. Hoje estou aqui. Se perder as vezes até que é válido. Queira ou não, faz a gente construir um destino.

sábado, 15 de setembro de 2018

DOIS POEMAS




O ATO

No momento em que estamos
Como que, nos buscando
Em nossa tão finita agonia
Até eu me derramar em ti
Feito uma hemorragia
Em nosso palco
Esse balé epilético
Instintivo e sem noção
Antes, durante e depois
Do ato
Deixando o rastro de um cometa errante.
 (Eliel Silva)


POEMINHA QUASE ERÓTICO

A abelha,
a flor,
o mel.
É o processo da criação!
Mas, pra que esse ferrão!?
(Eliel Silva)

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Setembros



REQUERIMENTO
...e assim, Excelentíssimo Senhor Juiz, venho por meio deste, solicitar autorização para que eu possa, neste 7 de setembro do ano de 2017, tomar a minha caipirinha, cujos ingredientes, limão, açúcar e cachaça, foram comprados com recursos do meu parco salário do mês (eu até contava com o adiantamento do décimo, mas foi só boato). Outrossim, garanto a Vossa Excelência que o dinheirinho deixado no mercadinho não é proveniente de Caixa 2.
Assinado,
Eliel Silva - funcionário público, e nas horas vagas, poeta e boêmio
07 de setembro de 2017


Hoje sinto a dor de um grito de independência dado há dez anos, uma simples mudança com resultados exorbitantes, de uma simples casinha branca para outra maior, onde minha vida mudaria, não necessariamente para o que eu queria.
Aquela casinha branca, a casa dos sonhos, hoje chora pela distância que a independência causou, chora de saudade, não somente dos quatro rockeiros e do cachorro, mas também dos meus avós que davam vida ao nosso lar, pessoas essas a quem devo a vida, devo tudo que tenho e o que sou.
Sinto saudades de ver meus avós da janela, das plantas, de arranhar o joelho no cimento, do supermercado às sextas, da feira aos sábados, de ouvir meu avô responder ao "bom dia, boa tarde, boa noite, até amanhã" do jornal, do bolo com suco de acerola e laranja no fim de tarde, do jeito único que meu avô tinha de tomar café, da maneira que vovó refogava o arroz, da minha mãe arrumando meu cabelo, do meu pai me acordando fazendo cócegas no meu pé, do meu irmão indo jogar bola com os amigos na rua da frente...
Temos que tomar cuidado com o grito de independência dado por nós, muitas vezes silencioso, nem sempre o caminho mais fácil é ausente de dor.
Talvez futuramente eu pule um número ou dois, mas hoje minha rua preferida ainda é a Rio Água Azul, e a casa 23. 
(Bel Silva, 7 de setembro de 2016)

E foi como eu já esperava: até aqui, somente a vaca mugiu!
Juro que eu não tenho absolutamente nada contra o amor. Portanto, não me provoque: meu golpe de carinho pode lhe ser fatal.
Hoje eu acordei com um desejo enorme de que já fosse o natal.
Hoje fiquei tão feliz com o nada por fazer que sequer dei um cochilo. Acostumado com a correria diária, ficar parado me deu uma trabalheira danada.
Esse silêncio não tem preço, e me veio de graça, quando eu já estava disposto a pagar o dobro por ele.
(Eliel Silva)

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Escritos de um tempo atrás




O mês nem bem começou e o meu coração já está sem crédito.

A fonte
Sedento à vagar pelo deserto dos meus dias, bebi naquela fonte onde o seu corpo desnudo se banhou. Milhões de bactérias vindas de você se transportaram para aquele pequeno lago em minhas mãos, onde fiz concha e te colhi sem saber. E então houve um processo de transformação dentro de mim. Me receitaram um monte de unguentos, me sugeriram simpatias, mas nada fiz. Afinal, não era minha vontade me ver curado de um mal tão bom.


terça-feira, 7 de agosto de 2018

Um simples poema




EM TEMPO DE GUERRA E PAZ

Eu quis seguir contigo esse caminho
Mesmo na incerteza, adentrando a contramão.
E vez em quando sendo forçados a fazer
Ultrapassagens em nosso coração. 

Mas há um Norte em teu olhar adentro
Busco uma estrela, e tenho vagalumes.
Nada me importa, se comigo vens.
De paz e luz são esses teus costumes.

A vida me levou à tirania
Hoje sou só metade do que fui
Mas eis que você chega de mansinho

E traz esse artefato de poeta
Dos nossos planos faz essa alquimia
E partimos nessa viagem incerta.
(Eliel Silva, 07.08.2017)