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"Engolimos de uma vez a mentira que nos adula e bebemos gota a gota a verdade que nos amarga." Denis Diderot

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Dezembros



Alguns boletos para pagar e uma dorzinha de cabeça. Preciso ir à farmácia mais próxima, mas antes passo no banco. Nenhum dinheiro nos caixas eletrônicos, mas os boletos são bem-vindos. Por perto, nenhuma farmácia aberta também. Vou subindo a avenida e, - pasmem os senhores! -, me deparo com dois animais pastando solenemente na praça do mercado. Deitado num banco, moribundo e sem boletos pra pagar, sem compromissos para a segunda-feira e sem dor de cabeça também, um homem dorme com o seu cheiro de caranguejo. Chego à farmácia e a moça me atende. Desço quase satisfeito. E pensar que um telefonema certeiro, ou a sorte grande num bilhete resolveria tudo (ou quase tudo). Vivemos essa vida por um fio. (Eliel Silva. Domingo, 10.12.2017)


Na Estrada

A espera é para todos e eu segui à risca.
Motoristas conversam, fazem suas graças,
 
barganham com os passageiros.
Eu preciso ir, mas não tenho tanta pressa.
Duas moças conversam sorridentes no banco de trás,
falam de planos para o futuro, sem "desesperar, jamais..."
A paisagem na estrada é que não me anima.  
No céu, as nuvens prenunciam um mormaço,
e o chão parece em chamas.
Tudo tão seco, o mato, os riachos...  
Na noite passada eu havia sonhado com um deserto.  
Mas a fé me parece ainda acesa... e eu vou.  
Ao passar pela minha cidadezinha o coração me aperta:  
ruas de paralelepípedos, as calçadas altas, as serras, o velho açude.
Mas a outra cidade mais adiante estava deserta,  
tudo fechado por lá.  
Parecia "o dia em que a terra parou", do Raul Seixas.  
Também é feriado e eu não sabia.  
Vou voltar pra casa com a graça de Deus.
 ...  
Já cheguei!  
A paisagem e as lembranças ficarão guardadas em mim.  
Por hoje a vida já me valeu,  
e dessa vez eu nem precisei pegar o avião!  
(Eliel Silva, 08.12.2017)

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Coisas de novembro

O Tempo, a ferida e a dor

Na tarde em que o sol se intimidou
E uma nuvem densa encobriu a cidade
e suavizou todo o clima,
Eu senti que você estava aqui tão perto.
Mas quem ousaria quebrar esse silêncio
imposto por essas pedras do caminho?!
Há musgos por todas as nossas veredas.
Foi o que restou.
Há tempos, o tempo desembainhou a sua espada.
Feriu as nossas vidas.
Mas também se vive aos pedaços.
Resistindo, em meio as tentações,
ao tempo e a dor.
Dizem que partir daquele jeito
é que é normal.
Mas a dor alheia sempre
é bem mais fácil de curar.
A nossa dor é ferida sem unguento certo.

(Eliel Silva, 23.11.2017)

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Frases minhas (também)

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Naquela noite tão diferente, o relâmpago vai rasgar o céu de ponta a ponta, o som dos trovões vai ser ensurdecedor, anunciando o mundo de água que cairá. A mulher, com sua crença, irá tremer, com o terço na mão; o velho homem ateu buscará um cobertor de lã, e uma dose de uísque. No outro dia, com tudo voltando ao normal, se encontrarão na rua. Ela indo pra igreja, ele indo pro trabalho, uma antiga livraria. E a vida não acabou. Não dessa vez.

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Os inocentes podem até se calar, mas está escrito: "as próprias pedras clamarão!"

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E quando chegar o fim da linha, vai me valer a trajetória que fiz nesse trem fantasma.

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Faço um esforço para me manter afastado daqui, mas o vento me faz voltar.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Crônica de mundos diferentes

Nesse mundo cão


Com a vista já irritada de tanto me debruçar sobre uns livros para fazer um trabalho de catalogação, resolvi dar um tempo, e então fui à janela para espairecer um pouco. Sabe como é: vez em quando vemos algo (ou alguém) que é como “um colírio para limpar a vista”. rsrs Pois bem! Vi, logo de cara, passando à minha frente, uma jovem senhora, em seu carro de passeio, levando no banco da frente, bem exposto à janela, o seu cãozinho de estimação. Uma gracinha. Com aquela carinha de “só quem pode”, ele olhava para as pessoas na rua, que caminhavam a pé. O vento batia no seu pelo, e isso o deixava ainda mais fofo. Juro por Deus, não deu dois minutos, e lá vem outro carro. Desta vez, um caminhão, com uma “carrada” de arei. Em cima dele, três trabalhadores, com as suas pás, suas roupas surradas e suas esperanças talvez. Enfrentando aquele sol das duas e meia da tarde, expostos aos olhares de todos e até de uma câmera de tv, se fosse o caso. Aquilo mexeu comigo. Que mundos diferentes naquele instante, o de bicho e o de gente! Perdi o gosto de ficar na janela, voltei ao trabalho, sem concentração, sem estímulo, sem vontade de fazer mais nada. Queria quebrar o silêncio, mas na minha angústia não sabia se eu chorava ou se eu latia. (Eliel Silva - 26/10/2017)



quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Coisas minhas

=> O seu amor alguém pode muito bem querer para si, mas duvido que queiram fazer o mesmo com a sua dor.

=> E quando te oferecerem um amor para toda a vida, cuidados, carinho, companhia, casa, comida e roupa lavada, esteja atento(a) ao que não está muito bem descrito no pacote. (Cobranças, incompreensão, atitudes egoístas e etc, são itens que podem estar grafados em letras quase ilegíveis, como aqueles anúncios do comércio). Acredite piamente em você, e em você somente. Daí, se quiser, pode até tentar a "sorte". Mas saiba que é uma loteria.