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"Engolimos de uma vez a mentira que nos adula e bebemos gota a gota a verdade que nos amarga." Denis Diderot

sábado, 12 de agosto de 2017

Agosto, apesar de você...



EM TEMPO DE GUERRA E PAZ

Eu quis seguir contigo esse caminho
Mesmo na incerteza, adentrando a contramão.
E vez em quando sendo forçados a fazer
...
Ultrapassagens em nosso coração.


Mas há um Norte em teu olhar adentro
Busco uma estrela, e tenho vagalumes.
Nada me importa, se comigo vens.
De paz e luz são esses teus costumes.


A vida me levou à tirania
Hoje sou só metade do que fui
Mas eis que você chega de mansinho


E traz esse artefato de poeta
Dos nossos planos faz essa alquimia
E partimos nessa viagem incerta.


(Eliel Silva, 07.08.2017)


quarta-feira, 21 de junho de 2017

Curtas

Eis que a orquestra executa um número musical tenebroso, não necessariamente como está escrito na partitura, mas sob pressão do seu regente. (Eliel Silva - 20.06.2017)

sábado, 17 de junho de 2017

Crônica de junho


MARIA FLOR

Maria cultivava flores em seu jardim. Na vida cultivava amigos. Ela tinha vindo de uma terra árida. Na infância quase não brincou, e chegou a passar fome. Mas tinha fé, como todo bom sertanejo, e logo passou a frequentar a igreja assiduamente. Mais tarde, se casou e teve cinco filhos. Três deles a morte lhe poupou. E os criou, junto a seu esposo, homem bom, trabalhador e honesto. Ele nunca aprendeu a ler e a escrever. Ela foi um pouco além. Viveram muitos anos. Depois que ele se foi, e com os filhos já criados, um deles meio crente e meio ateu, Maria adoeceu. Na sua (des)confiança, o filho mais novo ia no quintal e se ajoelhava. Dizia coisas para o espaço. Maria Flor passou a enxergar a vida de uma forma confusa. Muitas coisas se misturavam em sua mente. Passado, presente. Parecia resignada, e assim ela não aparentava sofrer. Mas foi tudo muito rápido. Em apenas quinze dias, a "Madona de Cedro" definhou. Amigos fizeram correntes de oração, políticos fizeram média; seus filhos, penitência. Nada a conteve. Nada a fez ficar aqui. Em silêncio profundo Maria se foi... Ela que fazia tanto, por tanta gente. Ela que acolhia bons e maus, vai-se sem companhia. Mas nem percebia. E nessa peça que a vida lhe pregou, Maria encerrou o seu ato. Hoje ela descansa em paz na morada final. No seu túmulo, que ela mesma mandou construir, apareceu uma fenda. Nela um arbusto brotou, e dele uma flor. (Eliel Silva – junho de 2017)

domingo, 28 de maio de 2017

Poema de maio



GOD
A TV me convocou e eu fui correndo
Não havia carros pelas ruas
Eu caminhava sozinho e a pé
Um velho moribundo me apareceu do nada

Pediu uma moeda e dei tudo que eu tinha
O sol era de um ardor tamanho
Busquei a sombra de um edifício
Até que uma sirene soou ao longe
Saí em disparada
Passei por um templo, ele estava aberto
Havia umas senhoras rezando
Juntei-me a elas, mas fiquei em silêncio
Uma luz forte invadiu aquele ambiente
Anjos, feito gente, ou era gente feito anjos
Começaram a circular
Fechei os olhos, de tanta luz
Um silêncio invadiu o meu ser
Vi que já era hora de voltar pra casa
Fui seguindo a mesma rota, só que ao inverso
E a vida pareceu normal.

Eliel Silva, maio/2017

sexta-feira, 31 de março de 2017

Crônica Urbana

"Às vezes saio a caminhar pela cidade
À procura de amizade
Vou seguindo a multidão
Mas eu me retraio olhando em cada rosto
Cada um tem seu mistério
Seu sofrer, sua ilusão."
("Casinha Branca" - Gilson/Joran)


Era mais de meio dia. Eu me dirigia ao trabalho, tranquilo e a pé. De repente, na avenida principal, vejo um pequeno engarrafamento. No seu velho FIAT, e às voltas com a marcha ré que não queria colaborar, um homenzinho tentava fazer um retorno. Aos poucos, alguns carrões modernos foram se aproximando. Percebi que quase todos os seus condutores pareciam irritados com aquela cena. Poxa vida, eles tão bem acomodados nos seus automóveis: ar condicionado, vidro escuro e prestações altíssimas. Eu, com o sol queimando a moleira, seguia o meu rumo sereno, até arriscando um sorriso vez em quando. Foi aí que comecei a me preocupar comigo: será que sou normal? Eu aqui, a pé e no sol, e ainda sorrindo? Passei numa farmácia e pedi a mocinha para verificar a minha pressão arterial, e saber se, de repente, eu até não estava com um pouco de febre. Ela falou que para a minha idade até que estava tudo normal (que consolo!). Fui em frente. Fui trabalhar. É... acho que o mundo ao meu redor foi que adoeceu. rsrs (Eliel Silva - maio/2017)