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"Engolimos de uma vez a mentira que nos adula e bebemos gota a gota a verdade que nos amarga." Denis Diderot

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Dona Militana

O silêncio da romanceira

“Lá nos Barreiros onde eu nasci,
Em São Gonçalo onde eu me criei,
Eu vou voltar pra meu sítio Oiteiro...”
(versos cantados por Dona Militana)
Renato Lisboa // renatolisboa.rn@dabr.com.br

Uma das maiores expressões culturais do Rio Grande do Norte, Dona Militana, intitulada "a maior romanceira viva do Brasil" foi sepultada ontem. Ela morreu no sábado, aos 85 anos, em sua residência, no município de São Gonçalo do Amarante, de causas naturais. Ela já havia passado por uma recente internação e os familiares não sabem dizer o que ela tinha exatamente, mas disseram que ela estava dormindo "mais do que o normal".
Batizada Militana Salustino do Nascimento, Dona Militana era a memória viva dos romances ibéricos. Esse estilo tem temas bem variados como amores perdidos, fidelidade, religião, demonstrações de valentia e sedução. Ela nasceu no sítio Oiteiros, em São Gonçalo do Amarante, no dia 19 de março de 1925. Seu pai, Atanásio Salustino do Nascimento, era outro nome forte do folclore,considerado o Mestre dos Fandangos. Quem descobriu e deu visibilidade à obra de Dona Militana foi o folclorista potiguar Deífilo Gurgel, que estava presente no velório, no Teatro Municipal Poti Cavalcanti.
Em sua homenagem no velório, Gurgel lembrou da homenagem que o governo federal rendeu à romanceira, a Comenda do Mérito Cultural e destacou a sua importância. "Trata-se de uma condecoração oficial concedida a pessoas como Chico Buarque de Holanda e Oscar Niemeyer. Ela foi igualada aos grandes nomes da cultura de nosso país", disse Gurgel ao teatro lotado.
O folclorista afirma que ela sabia não apenas romances, mas também adotava outras formas de manifestações culturais. "Dona Militana tinha uma memória incrível. Em uma pesquisa recente, constatei que nenhuma das romanceiras nordestinas tem uma gama de romances tão grande quanto ela", declara.
O diretor teatral Véscio Lisboa, que fez peças inspiradas na obra de Militana, disse que "viajou na beleza dos romances e os transportou para o século XXI".
A ex-governadora Wilma de Faria, emocionada, disse que a obra de Dona Militana deveria ter uma "exposição maior" do que alcançou. "É uma pena que nossa cultura seja tão pasteurizada, cheia de artistas pré-fabricados, além de programas de TV que só exibem 'enlatados'", declarou.
O deputado estadual Fernando Mineiro espera que a obra de Dona Militana seja melhor divulgada a partir de agora. "Ela era uma romanceira única na quantidade e na qualidade de suas letras. Espero que, com sua morte, a obra fique mais conhecida. Infelizmente é assim que sempre acontece", diz ele.
Depois de uma missa na Igreja Matriz de São Gonçalo, o corpo de Dona Militana foi enterrado no cemitério do mesmo município.
 Fonte: Diário de Natal - Edição de segunda-feira, 21 de junho de 2010
Foto: Internet

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