"Cantar nunca foi só de alegria
Com o tempo ruim
Todo mundo também
Dá bom dia!" (Gonzaguinha)
Ode a uma estrela
(Mesmo num dia chuvoso)
Depois de tanta chuva durante toda a noite, a preguiça me convida para ficar em casa, agasalhado, abraçado ou não, às minhas ilusões. Mas a dispensa aqui de casa não me dispensou da tarefa de ir ao supermercado. E eu fui. Não sem antes fazer uma boa ação, que não convém aqui entrar em detalhe, pode parecer muita pretensão da minha parte. E seria mesmo. Então lá vou eu, rua acima, guarda chuva (do cabo torado) a postos. Após fazer umas pequenas compras no supermercado, tão necessárias, me dirijo ao caixa. Apenas três funcionando. Optei pelo que, na fila, tinha um carro com menos compras. Por sorte, a moça que atendia me pareceu muito simpática. Um ar angelical no rosto, coisa que, para um dia como o de hoje, isso já me parecia um milagre. E foi o que vi. Muito educada, serena, com um batom de cor suave nos lábios, ela me sorriu e me deu bom dia. Eu que ultimamente ando carente de tudo, ali já recebi o troféu da copa por antecipação. Quando ela foi passar o meu vinho, comentou: "um vinhozinho para esquentar nesse dia frio!" Ora, gelado eu já estava. Gelado e encantado com tanta delicadeza e educação. Não quis bancar o deselegante, mas a vontade que me deu foi de convidá-la para uma taça. Mas me contive. Já me bastam as traças que me devoram com os seus dentes afiados. Não me fiz de rogado: fiz um elogio a moça assim, à queima roupa. Nem me importei. Naquele momento podia até trovejar, relampear. Meu para raio já estava acionado. Apenas falei para ela a verdade. Que eu estava encantado com tanta gentileza da parte dela, num dia atípico como esse. Ela me agradeceu sorridente e falou que ainda teve que enfrentar uma negociação com o cara do Uber, que pediu mais de 30 reais para trazê-la ao trabalho. Tá vendo! E no entanto ela estava ali, com aquela simpatia, tratando bem todo mundo. Fiz bem em elogiar a moça. O que, aliás, eu teria feito o inverso, do mesmo jeito, se fosse o contrário. Se não prestasse eu também diria. Como já fiz com outras por aí. E aí sim, o tempo fechava! Mas graças a Deus tudo correu bem. Passei o meu cartão, que cada dia está ficando mais fino, de tanto ser lambido pela maquininha. Peguei as minhas compras e desci a ladeira. Chegando em casa, no meu velho aparelho três em um, outro gênio da nossa Música Popular Brasileira ainda me mandava mais um recado. Ele dizia: "Amarra o teu arado a uma estrela... E os tempos darão:
Safras e safras de sonhos, quilos e quilos de amor..."
Porra! É tudo o que eu preciso. Aleluia!

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