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"Engolimos de uma vez a mentira que nos adula e bebemos gota a gota a verdade que nos amarga." Denis Diderot

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Do Face XXII

"Abri a porta, 

Apareci, 
A mais bonita, 
Sorriu pra mim ... 
Naquele instante me convenci 
O bom da vida vai prosseguir ."
(A Cor do Som)



AS PORTAS

Sim, me diz para que servem elas!
Servem pra se fecharem quando eu te procuro?
Servem para se abrirem quando queres ganhar as ruas?
Quem as inventou? E por que diabos não patenteou?
As minhas portas são de palhas
E nem precisas bater nelas.
Dê um sopro e elas se abrirão,
e então verás um coração
que vagueia sem qualquer razão,
querendo abrigo seguro,
que mantenha sempre bem abertas
as portas da percepção.
(Eliel Silva - 20.10.2015)

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Do Face XXI


O ato
No momento em que estamos
Como que, nos buscando
Em nossa tão finita agonia
Até eu me derramar em ti
Feito uma hemorragia
Em nosso palco
Esse balé epilético
Instintivo e sem noção
Antes, durante e depois
Do ato
Deixando o rastro de um cometa errante.
(Eliel Silva - 15.09.2015)

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Poeminha quase erótico

A abelha,
a flor,
o mel. 
É o processo da criação!
Mas, pra que esse ferrão!?
(Eliel Silva - 15.09.2015)

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Do Face XX




TREM DO ALÉM


Eu embarquei naquele trem meio sem querer. É que eu caminhava sem destino, e uma pequena estação surgiu na minha frente, no meio do nada. Ouvi um apito longínquo e era a locomotiva que deslizava sobre os trilhos de uma estrada de ferro perdida. As portas se abriram e eu escolhi o último vagão. Não sei porque, eu não tinha pressa nenhuma de chegar. Me acomodei por entre aqueles passageiros que pareciam vindos de outras épocas. Alguém acendeu um cigarro esquisito e a fumaça tomou conta do vagão. Havia um aviso discreto que dizia: "É proibido fumar cachimbo, charuto ou cigarro de palha". Mas isso era o de menos pois a locomotiva, aparentemente cansada e sem manutenção, soltava uma nuvem de fumaça que se espalhava por todo o trajeto. Onde esse trem vai me levar? As vezes eu me perguntava. Ouvi o som de um instrumento de fole no vagão anterior ao que eu estava. Me levantei e caminhei na direção da música. Um ancião tocou levemente no meu braço e falou: “Não vale a pena!” Fiz um gesto com a cabeça, querendo lhe agradecer pelo alerta, mas segui em frente. Desobedeci. Ali estava mais animado. Bêbados e prostitutas faziam a festa no ambiente. Além de fumaça, ali havia bebida, música e fantasia. Mas foi numa curva mais fechada que pude observar melhor, pela janela aberta daquele vagão, a força motriz da composição. Ela avançando naquele mundo desabitado, me levando para onde eu não sabia. Tinha mais alguns vagões até chegar a máquina, e então resolvi passear por todos eles. Mais adiante, um monte de almas cansadas foi o que eu vi. Trabalhadores, andarilhos, mulheres destemidas, crianças mal cuidadas. Senti um desejo enorme de voltar atrás. Pegar uma outra condução que não carregasse tanto mistério. Era tudo tão estranho! Parecia que eu ia parar no inferno de Dante. Mas quando se está no caminho, seguir é o que se tem que fazer. Àquela altura eu já não tinha ambição nenhuma, nem vontade. Só me acomodei outra vez no assento, e dessa vez ao lado de uma jovem muito bela, mas sem nenhuma intenção da minha parte. Tentei puxar assunto, mas ela me pareceu longe dali. Só me falou: “A próxima estação é o fim da linha.” Sem saber o que dizer, ainda perguntei: “E como se chama o lugar da próxima estação?” “Terra de ninguém”, ela me respondeu. E se fechou com um ar sisudo. Mergulhou num silêncio assustador. Em meio a um turbilhão de apitos, aquele trem foi parando lentamente. As portas se abriram e as pessoas seguiram os seus rumos. Parecia um desembarque num apocalipse. Ninguém me esperava e eu segui adiante, sozinho e temeroso. O vento soprava suave e fazia um leve barulho nas folhas de uns eucaliptos, e ainda trazia um cheiro forte de melaço da cana cortada e esmagada há poucos dias. Eu não sabia, mas estava outra vez caminhando para a casa do meu pai. Já era madrugada. Ali eu chorava em silêncio.
(Eliel Silva - 29 de agosto de 2015)

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Do Face XIX



Vai, mês de julho, vai... Vai com as tuas águas e a tua frieza. Este ano fizeste mulheres e homens vestirem os seus casacos, que há muito estavam guardados. Foste como antigamente. Molhaste bem esse nosso chão. Mas chegou o teu último dia. E assim, com sol e chuva, e para mim, e que fique entre nós, com uma certa desesperança, entregas as próximas jornadas para o mês de agosto. Agosto que já nos levou Raul, Elvis e Luiz Gonzaga. Isso entre tantos outros. Agosto que para mim sempre foi uma incógnita. Mesmo assim já atravessei 52 deles. Não vou dizer que eu não temo, pois eu temo e tremo. Até me arrepio. Mas vou sempre na esperança de contemplar as flores de setembro. Porque, “quando entrar setembro”, e eu já vivi alguns nada tão amáveis, difíceis até, eu diria, a primavera nos trará sempre uma esperança. E já não há o que temer porque, ao longo desses anos todos, houve tempo suficiente para aprender que, como diz a canção, “nessa estrada só quem pode me seguir sou eu”. Um brinde ao que virá! (Eliel Silva - 31.07.2015)

sábado, 18 de julho de 2015

Do Face XVIII


FIM DA PROJEÇÃO

Momento raro e proveitoso eu vivi nessa manhã. Fui ao bairro Passa e Fica fazer uma pequena compra numa dessas casas onde se vende plantas ornamentais. Todo aquele verde em si, já me inundou a alma e me fez muito bem. E ao sair de lá, e caminhar lentamente naquela estrada de terra, olhando para aquele mundão que acolhe o antigo Colégio Agrícola de Ceará-Mirim, espaço que tanto frequentei na década de 80, mais precisamente, de 1980 a 1985, algo me tocou. Foi como um estalo que deu, e me deixou em stand by. Fiquei parado ali, olhando a paisagem. Tudo passava na minha frente, querendo me despertar. Mas nem mesmo o barulho dos automóveis foi suficiente para me trazer de volta. Eu estava muito além de mim, no meio do nada, onde a vida parecia ter se perdido no tempo, e eu a encarei de passagem. Alguns conhecidos passavam, acenavam ou paravam e conversavam comigo. Outros, apenas olhavam desconfiados, como que se perguntando: que diabos ele está fazendo por aqui?! Ora, eu só sei que estava ali, e era ali que eu queria mesmo estar, naquele momento, naquela esquina transversal do tempo. Sinceramente, agradeço a Deus por, de vez em quando, eu ser acometido desse estado de nada. Ele até que me faz bem. Nessas horas faço uma viagem, e descarrego toda a tensão acumulada em mim. Pois bem. Mas por fim, acenei para um moto taxista que passava. Ele encostou a sua moto, pedi que me deixasse no mercado central. Coloquei o capacete, me ajeitei na moto e descemos a avenida principal. Me senti um ator coadjuvante, ou sei lá, o principal, de um filme meio que esquecido. O sol e o vento batendo na minha pele. Era o fim da projeção. (Eliel Silva, 18.07.2015)